"Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca."
Jorge Luis Borges
Quando criança, eu sempre sonhava esse mesmo sonho: sonhava que ia à uma Biblioteca incrível, todinha coberta de livros, e com carpetes e cortinas em veludo vermelho. Poltronas e pufes de veludo colorido se espalhavam pelo lugar, para que eu pudesse confortavelmente me espalhar sobre eles com o livro da ocasião. Era uma biblioteca mágica, mas não obviamente mágica – provavelmente eu chamava de "mágica" na época porque ainda não conhecia as palavras "onírica" e "surreal". Mas era mágica até mesmo para o lirismo dos sonhos.
Para chegar, não havia mapa ou ponto de referência – provavelmente, quanto menos direção ou sentido houvesse, mais próximo se estava do lugar. E não havia exclusividade, como se a Biblioteca fosse secreta, ou como se estivesse reservada só para mim; em vez disso, eu sabia que outros podiam alcançá-la quando quisessem, sem esbarrar com o porteiro kafkiano ou girar uma chave como a do jardim secreto.
Quando e como eu entrava lá, no entanto, permanecia um mistério. Em um momento deitava a cabeça no travesseiro e, em poucos minutos já havia tomado uma estrada de tijolinhos amarelos, para a beira de um mar com ondas roxas e verdes, que não era mar, mas o céu sobre um cemitério sinistro, de onde se via uma loja de pranchas de surf com enfeites de natal, e ao lado o meu colégio, onde eu conversava com pessoas sem rostos e tomava um grande zero em Ciências. Com certeza minha mãe sem rosto ia ficar brava quando visse aquela nota, então eu pulava uma janela em vez de atravessar uma floresta, corria pra me esconder de um buldogue manso e... Lá estava eu na Biblioteca.
Ah, que prazer, que felicidade, que paz reinava lá. Sem mares, cemitérios, zeros, buldogues. Sem qualquer lembrança do mundo exterior. Só a Biblioteca e eu. Havia outras pessoas que chegavam comigo ou que já estavam lá. Pessoas sem rosto lendo livros de capas lisas, muito quietas e compenetradas. Podia-se passear por todo o lugar e tirar os livros para ler, e não havia uma bibliotecária para pedir silêncio ou arrumar a bagunça: cada um era um pouco Bibliotecário.
Eu passava por portas de correr que se abriam e fechavam sozinhas. Depois que se fechavam atrás de mim muitas delas sumiam, enquanto outras continuavam lá, mas não levavam mais à sala anterior. Cada vez que eu passava por uma porta, uma nova sala se criava, com novos livros, novos leitores e novas ideias. Era um labirinto gostoso para se perder.
Se eu finalmente escolhesse um livro e me sentasse para ler, então, por um momento, tudo se acalmaria ao meu redor. Aos poucos, bem fraquinha no começo, apareceria uma linha à minha frente, que aumentava ao poucos e, quando eu visse, estava caminhando uma estrada de tijolinhos amarelos para dentro de outra história, e a Biblioteca ficava para trás. Eu não me importava, pois sabia que a biblioteca estava logo ali e que, quando eu quisesse, poderia voltar.
Até que um dia, eu não consegui voltar pra lá. Nem no dia seguinte, nem no outro, nem no outro ainda. Por mais que eu me perdesse, por menos sentido que eu fizesse, por mais maluquices que acontecessem, a Biblioteca não estava mais lá pra mim.
No começo, sentia falta, buscava aquele lugar mais que tudo. Punha a cabeça no travesseiro e repetia "n" vezes, até adormecer: "quero ir pra Biblioteca, quero ir pra Biblioteca, quero ir pra Biblioteca, quero ... pra Biblioteca ...biblio...". E puf: estrada de tijolinhos amarelos, golfinhos dançando break, meu grupo de teatro provando figurinos, o Jason e o Fred lutando com sabres de luz no meio de uma guerra zumbi no centro da cidade, pessoas sem rosto tomando sorvete, o menino mais lindo da escola me olhando em meio a tudo isso, uma torneira de água que não parava de pingar... Paf: acordava e ia para o banheiro arrumar o cabelo e sair pra escola.
Porque nada na vida é como a gente quer (e, se fosse tudo como a gente quer, nada na vida tinha graça), eu não conseguia sonhar com a Biblioteca. Tentava me lembrar de lá e tinha mesmo uma boa ideia de como era, mas voltar mesmo não dava pé. Então tentei psicologia reversa comigo mesma e decidi esquecer a Biblioteca pra conseguir lembrar dela em sonho. Lembro de ter pensado: "Esquecer pra conseguir lembrar: isso não faz muito sentido... Então deve dar certo."
No mesma noite pus a ideia em prática e a cabeça no travesseiro, e nem pensei na Biblioteca. Mal lembrava que ela existia. Puf, paf, nadica de nada de Biblioteca. Como não surtiu efeito logo de cara, resolvi repetir a dose de esquecimento, pra ficar bem esquecido mesmo, aí sim eu conseguiria me lembrar. Mas não tinha jeito: nada de Biblioteca, por semanas, meses... Por anos.
***
A vida vai acontecendo com a gente, e tem coisa que a gente nem volta atrás pra reviver. Umas são coisas tristes ou chatas, e a gente evita ao máximo que apareçam de novo, por que, quando vêm, é só pra aborrecer. Ainda assim as coisas tristes e chatas vivem pulando de dentro de caixas coloridas e rindo na nossa cara.
Mas também há as coisas bonitas, gostosas e leves, umas ninfas que pairam sobre as nossas cabeças e, de vez em quando descem pra assoprar nosso nariz, fazer cosquinha ou desejar bom-dia. Hoje eu bati o olho correndo numa citação do Jorge Luis Borges, e num instante bem curtinho mas muito eterno, uma ninfa desceu correndo para fazer cócegas e sussurrar no meu ouvido:

Nenhum comentário:
Postar um comentário