O SUS não serve pra quem precisa de tratamento contínuo: ou você vai num posto de saúde pra receber atendimento imediato e paliativo, ou então vai ao hospital fazer um transplante de coração: não tem meio termo.
Se você for ao posto mais próximo da sua casa porque está com um problema de pele, ou porque tem sinusite, ou por causa de uma enxaqueca, como foi meu caso hoje, simplesmente não recebe atendimento adequado.
Depois de esperar por quase 1 hora vomitando e com uma dor de cabeça dos infernos, num lugar barulhento e iluminado, com um banheiro porco, sou recebida em uma salinha para a "triagem": a enfermeira mede minha temperatura e minha pressão, pergunta se eu tenho alguma alergia e nem olha na minha cara. Anota na ficha "dor de cabeça" em vez de "enxaqueca", apesar dos meus protestos.
Volto para a sala barulhenta e espero mais de 1 hora pra ser atendida pelo médico. Ao questionar por que a demora era tanta, fui informada que às segundas e quartas estava faltando médico. Não é só hoje: toda segunda e quarta falta médico na porcaria do postinho!
Arranjo um lugar pra sentar e enfio minha cara na mochila pra tentar abafar o ruído da sala de espera. Uma senhora ao meu lado me pergunta o que eu tenho, eu respondo. Ela diz "ah, coitada, deve ser muito ruim". Pergunto por que ela está lá e a resposta é: "estou com um caroço no seio esquerdo". Não falo muita coisa pra ela, mas fico pensando em quanto o nosso sistema de saúde é péssimo: a pessoa pode ter um câncer e não saber, afinal nem tem acompanhamento médico decente pra fazer um diagnóstico precoce. Até que o câncer já esteja em estado avançado: aí a pessoa vai a um posto de saúde tratar de um problema sério e fica horas sentada esperando por falta de médico.
Ela é chamada um tempo depois e eu volto a enfiar a cara na mochila. Quando finalmente chega minha vez de falar com o médico, ele se comporta como se eu nem estivesse ali: parece que tem uma coisa qualquer muito mais interessante na minha ficha que em mim. O cara me pergunta: "então você está com dor de cabeça?". Explico que não, que estou com enxaqueca e que tenho tido crises mais frequentes nos últimos meses. Falo os nomes dos remédios que tomei nessas crises (quase todos comprados sem receita).
Aparentemente, além de não ter a capacidade de me ver, o médico também não consegue me ouvir. Me receita um remédio que eu já tomei e ainda tenho em casa, e que sei que não me ajuda muito. Pergunto se tem algum outro que ele possa me receitar e ele diz "Tem um mais caro, mas você não vai conseguir aqui na farmácia do posto, precisa comprar". Peço para ele me passar a receita, ele escreve alguma coisa ininteligível no seu receituário, arranca uma folha e me entrega.
Peço um atestado médico e ele diz para eu pegar na recepção. Saio para o salão barulhento menos de cinco minutos depois de ter entrado na salinha do médico. Peço um atestado e a moça diz "a gente não fornece, tem que pedir pro médico".
Resmungo, viro as costas e vou embora pra casa, curtir minha enxaqueca em paz.
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